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Chick-lit e o bom e velho preconceito

chick-lit

Acho que preconceito é algo inerente ao ser humano, né! E por mais que a gente queira ter a mente aberta, estar disposto a não julgar antes de conhecer, nem sempre isso é possível, e acaba que uma hora ou outra o preconceito toma conta de nós e aí já foi. Eu confesso um que eu tenho e do qual tenho tentado continuamente me livrar: não me dou com best-seller. Isso porque geralmente eu vejo tanta gente boçal proferindo maravilhas a respeito destes livros que é automático pensar: “se fulano gostou, só pode ser um lixo!”.

Junte-se a essa receita o ingrediente de eu ter estudado História e ter sempre tido muito contato com muitos textos e livros de história propriamente dita e outros ligados a filosofia, antropologia etc. e essas serem áreas não muito bem quistas do “grande público”. Aí já viu, comecei a ter uma certa aversão a tudo quanto é tipo de literatura que faz muito sucesso. Fui muito resistente pra começar a ler Dan Brown e até mesmo J.K. Rowling (mas isso já é assunto pra um outro post), então imaginem só o meu nojinho – sim, não há palavra melhor pra descrever o que eu sentia – em relação aos livros de chick-lit.

Pelo perfil do pessoal que escreve para o Livre-se – e caso esse perfil se reflita nos nossos leitores – pode ser que muitos nem saibam o que seja chick-lit. Simplificando ao máximo, o chick-lit está para a literatura como a comédia romântica está para o cinema e tem em seu cerne muitas características similares. Mas vamos a uma explicação mais detalhada: chick-lit é um gênero de ficção que faz parte do universo da ficção feminina e que trata de questões que envolvam a vida das mulheres modernas. São romances de tramas leves e divertidas e que por conta disso acabam sendo verdadeiros sucessos de venda. E a característica mais marcante desse gênero de literatura é a protagonista, que é sempre do sexo feminino. Geralmente elas estão buscando sucesso, seja na vida pessoal ou na carreira e tem idade variada, podendo ser uma estudante de colégio ou faculdade ou mesmo uma cinquentona. Mas a grande maioria das tramas traz heroínas com idade entre os 25 e 30, como é o caso da icônica Bridget Jones, que acabou se tornando conhecidíssima do grande público depois que Renée Zellweger deu vida à personagem nas telonas. E as histórias sempre trazem uma forte pitada de humor ao relatar o dia a dia insano da mulher que tem que lidar com carreira, cuidar da casa, ter um relacionamento bem sucedido, estar gostosa e sem nenhuma celulite etc. etc. etc. E aí está uma fórmula exata para fazer sucesso com a mulherada, não tem erro…

A principal diferença do chick-lit para aqueles romances de banca tipo Sabrina é justamente o tom de humor, porque a mulher moderna, ao ter que assumir tantos papeis acaba se atrapalhando e provocando boas gargalhadas no leitor. E aí pra quem, como eu, sempre foi habituado a ler Saramago, García Marquez, Rubem Fonseca, Rachel de Queiroz, é quase automático pensar coisas como: isso não é literatura; típico livro pra gente com preguiça de pensar; essa trama deve ser uma porcaria totalmente previsível. E eu confesso, já tive muitos desses pensamentos e quando, há uns cinco anos, me perguntaram se eu já tinha lido Melancia e Sushi, primeiro que nunca tinha ouvido falar e depois, ao descobrir do que se tratava, pensei: Deus que me livre e guarde.

Mas como dizem os mais sábios, nunca devemos dizer “dessa água não beberei”. O primeiro chick-lit que tive contato foi, justamente, O Diário de Bridget Jones, porque eu tinha adorado o filme e o meu pensamento foi que se o filme era tão legal, o livro certamente seria melhor. O mesmo aconteceu com O Diabo veste Prada, que depois de me encantar com a Andy Sachs vivida por Anne Hathaway, me fez correr pra livraria pra comprar a versão impressa. Ainda assim, ainda não me via seduzida pelo gênero, era só uma questão de: o livro é sempre muito melhor que o filme, logo se eu curti na telona…

Até que, ainda nessa lógica, eu assisti a Os delírios de consumo de Becky Bloom e o meu lado gastador me levou a uma empatia automática com a protagonista, e saí correndo pra comprar o livro no qual o filme se baseou e adorei. Como Becky Bloom é a protagonista de uma série, fui comprando os outros livros e me encantando pelo estilo da autora Sophie Kinsella, o que me fez comprar até outros livros da autora não protagonizados pela minha musa consumista. E foi a partir de então que eu passei a olhar para o chick-lit com outros olhos.

Todo o meu preconceito estava me afastando de livros muito bons e com uma trama muito leve e gostosa de ler e que, a partir de então, eu passei a adotar como intervalo entre livros muito pesados. Quando eu leio algo muito forte ou baseado em fatos reais (estou sempre lendo sobre a Ditadura Militar, o Holocausto, Segunda Guerra), boto um chick-lit para ler na sequência pra deixar meu cérebro dar uma respirada. E assim, enfim, eu acabei conhecendo Marian Keyes e seus livros e posso confessar dizer que hoje em dia já sei do que se trata (e li) Melancia, Sushi, Férias, Los Angeles, É agora ou nunca…, Casório?!, e sou obrigada a dar o braço a torcer e recomendo – hehehe.

Além da super cultuada Marian Keyes, e de Sophie Kinsella (que é a minha autora predileta desse gênero), outros nomes de destaque são Candace Bushnell (Sex and The City e Lipstick Jungle – esse segundo é bem ruim, já aviso…), Helen Fielding (O Diário de Bridget Jones), Lauren Weisberger (O Diabo Veste Prada), Meg Cabot (O Diário da Princesa e toda a série) entre tantas outras. Aqui no Brasil o gênero ainda tá engatinhando e temos já dois nomes se destacando: Paula Pimenta (das séries Fazendo meu filme e Minha vida fora de série que puxam um pouco mais pra literatura teen) e Leila Rego (da série Pobre não tem sorte). E eu acredito que com o fortalecimento desse gênero no mundo todo e com cada vez mais livros sendo adaptados para o cinema, é só uma questão de tempo para que mais escritoras brasileiras despontem nesse gênero e apesar de todos os preconceitos existentes, os fãs de uma boa e gostosa trama só tem a comemorar. 🙂

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tayra

Eu sou daquelas que assobia, chupa cana, bate palma e rebola ao mesmo tempo. A que queria ser ginasta e acabou bailarina, a que estudou História e Jornalismo, mas virou publicitária de pé quebrado. Eu tenho sede de mundo, de viver, de saber… “A vida é hoje, o sol é sempre, se já conheço eu quero é mais…” (Milton Nascimento)

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