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[livro] Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez

01 ABERTURA 100 anos

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. Assim começa Cem Anos de Solidão, obra-prima de Gabriel García Márquez – que na terça-feira passada completou 85 anos –. E assim nosso queixo já cai desde o primeiro parágrafo.

A saga dos Buendía é contada de forma apaixonante a cada linha, mesclando momentos mágicos e extraordinários com uma realidade tão crua que parece que tudo aquilo de fato aconteceu. Essa é uma das coisas mais impressionantes do livro. Macondo é uma aldeia que dá realmente vontade de visitar. Ela foi fundada por José Arcadio Buendía, o patriarca da história, junto com seus homens, “mulheres e crianças e animais e toda espécie de utensílios domésticos”, que por vinte e seis meses de caminhada resolveram parar por ali para não ter que retornar.

E vão aparecendo os ciganos trazendo as invenções mais fantásticas do mundo, e lá vai Melquíades alimentando o espírito empreendedor de José Arcádio e enlouquecendo Úrsula, sua esposa. E começam a nascer os Buendías para rechear as páginas de Josés Arcadios e Aurelianos, que dão origem a novos Josés Arcadios e Aurelianos, que dão origem a mais Josés Arcadios e Aurelianos, até que você começa a ler com muita calma para não se perder com tantos Buendías de mesmo nome. Muitas pessoas leem este livro novamente para construir a árvore genealógica da família, a fim de se certificar que o autor não se perdeu no meio do caminho – e incrivelmente nunca se perde.

“Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias".

A história vai crescendo diante de nossos olhos, revelando personagens maravilhosos e bem construídos, que vão para nunca mais voltar, ou voltam quase irreconhecíveis depois de fugir por anos, ou se instalam – como os turcos ou as putas francesas – até envelhecer, ou morrem jovens num pelotão de fuzilamento ou numa estação de trem, ou simplesmente desaparecem com o vento, todos eles observados pela nossa querida Úrsula, peça centenária sempre pronta para cuidar dos seus, mesmo que nem percebam que de tão velha nem mais os enxerga.

Deviam ser uns três mil”. Algumas frases são impossíveis de esquecer, assim como as cenas com as quais nos impressionamos e das quais rimos ou, pasmos, choramos: da chuva que nunca cessa, das crianças que tratam a pobre velha como boneca de pano, das borboletas amarelas, dos peixinhos de ouro, do barulho do saco de ossos, dos pergaminhos de Melquíades, dos penicos, da incrível sincronia dos gêmeos, de Remedios nua, dos castanheiros, das lutas…

E da solidão. Esta é a carga que todo Buendía carrega ao longo da vida. Não importa a união da família, sua desunião, idas e vindas, a guerra, a paz, as formigas, a loucura, os filhos, as amantes, os pretendentes. Em todos eles a solidão estará arraigada na alma, até morrerem frente ao pelotão de fuzilamento, ou na cama, ou na cadeira de balanço de cipó, ou simplesmente recostados a uma árvore.

cem anos forever alone

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André Lasak

Redator-peregrino. Viciado na arte da letra. Na construção das palavras. Na musicalidade das frases. Na remissão dos pecados. Na vida eterna. Amém.

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  1. Uma vez encontrei esse livro numa livraria perto de casa em espanhol. Não comprei porque meu espanhol é nulo e sou firme defensor da tese de que livros foram feitos para serem lidos, não para serem colecionados. (mesmo eu sendo colecionador de livros, eu os leio todos pelo menos uma vez)

  2. Gosto tanto, tanto que mudei pra lá… Vê só: twitter.com/tayra.

  3. Melhor livro da história. <3
    Preciso reler, aliás.

  4. Roberta A. Aires disse:

    Resenha inspiradora, deu até vontade de reler…

  5. Me lembro que fiquei um ano sem conseguir ler nenhum outro livro depois deste, um realismo fantastico íntimo que apenas Saramago conseguiu curar em mim, uma solidão de mais de cem dias…"Cem anos" trata de uma metáfora à solidão, o isolamento e a formação da América do Sul, nossa Macondo de Piazzola, Mercedes Sosa, Milton, Violeta Parra e tantos outros libertadores…Jamais esqueci do sangue que escorre pelo chão, percorre a rua, atravessa o bairro sobre a escada e chega aos pés da mulher que o vê e fala: "meu filho". Parabéns pela resenha André!

  6. Me lembro que fiquei um ano sem conseguir ler nenhum outro livro depois deste, um realismo fantastico íntimo que apenas Saramago conseguiu curar em mim, uma solidão de mais de cem dias…"Cem anos" trata de uma metáfora à solidão, o isolamento e a formação da América do Sul, nossa Macondo de Piazzola, Mercedes Sosa, Milton, Violeta Parra e tantos outros libertadores…Jamais esqueci do sangue que escorre pelo chão, percorre a rua, atravessa o bairro sobre a escada e chega aos pés da mulher que o vê e fala: "meu filho". Parabéns pela resenha André!

  7. Fabio Ciccone disse:

    Livraço. Preciso muito lê-lo de novo… e olha que eu não sou de reler livros.

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