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[livro] Moby Dick – Helman Melville

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Em 2010 eu resolvi assinar a coleção “Clássicos Abril Coleções“, por vários motivos: eram 30 livros (alguns divididos em 2 volumes, totalizando 35 no fim das contas) por um preço bem razoável, capa dura e com vários clássicos da literatura brasileira e mundial que eu ainda não tinha lido. Dois anos depois a maior parte deles ainda está com o plástico de proteção, mas aos poucos estou lendo-os. Moby Dick é um deles.

Este livro é a obra prima de Helman Melville, autor norte-americano, e foi publicada em 1851. Acontece que este foi um daqueles casos no qual o autor só tem seu talento reconhecido postumamente: Moby Dick só teve cerca de 3 mil cópias vendidas enquanto Helman estava vivo. A tradução de Berenice Xavier consegue reproduzir o tom rebuscado do original, o que pode tornar a leitura cansativa para os fracos de coração. Mas calma que piora (como diria um amigo meu).

O livro não segue uma narrativa linear. Ela é constantemente interrompida, e Helman utiliza habilmente

“vários modos de escrita: o do relato de viajante, puro e simples; passando pela crônica de costumes, quando ele descreve deliciosamente uma cidade como New Bedford ou Nantucket, ou apenas a vida em uma pousada; o do texto científico, com a sua classificação dos tipos de baleia; do filosófico, quando entra na alma humana para tentar perceber o que há de estranho no homem, de incongruente ou irracional; ou mesmo do lírico, quando a voz retorna para Ismael, o protagonista desse grande livro.”

Moby Dick - Call me Ishmael

A primeira frase de Moby Dick é uma das mais conhecidas da literatura norte-americana: Call me Ishmael – “Chamai-me Ismael” na tradução. Ela evoca aquele sentimento de que o autor do relato, Ismael, não quer se identificar por seu nome verdadeiro. Por quê? Será que seu passado é tão condenável assim? Ou seria porque os eventos a serem narrados o modificaram de tal forma que ele abandonou sua persona anterior e passou a viver essa? Nunca saberemos.

O livro tem um mar de simbologias (o trocadilho é intencional, porém inevitável :P ). E podemos ver isso claramente na escolha dos nomes de alguns personagens-chave: Ismael é o nome do primeiro filho de Abraão com Agar, escrava de Sara, esposa dele. Entretanto, Deus havia feito sua aliança com Abraão e Sara, que em suas velhices geraram Isaque. Porém, a Ismael também foi prometido que dele seria feita “uma grande nação”. Assim como os judeus se consideram herdeiros de Abraão através de Isaque, os árabes se consideram herdeiros de Abraão através de Ismael. A ideia aqui é de alguém abandonado à própria sorte, tanto no relato bíblico quanto em Moby Dick.

Moby Dick

O simbolismo bíblico não para por aí: quando Ismael e o selvagem Queequeg vão embarcar no navio baleeiro Pequod, um mendigo chamado Elias profetiza que aquela viagem terminaria em desastre. Ora, Elias é considerado o maior dos profetas hebreus, tão fiel e chegado a Deus que não teria conhecido a morte, sendo elevado aos céus num redemoinho. E Ahab, o cruel capitão do Pequod, um dos personagens mais complexos da literatura, é o nome de outro personagem bíblico, que não foi traduzido neste caso: trata-se do Rei Acabe, rei de Israel, coroado no trigésimo oitavo ano do reinado de Asa, rei de Judá.

Para situar os leitores que não conheçam tanto a Bíblia assim: após o reinado de Salomão, filho de Davi, o reino de Israel, que era formado por 12 tribos, foi dividido em dois – o reino do Norte, Israel, que ficou com 10 tribos; e o reino do Sul, Judá, com as 2 tribos restantes. Em termos gerais, Israel era infiel a Deus, enquanto que Judá seguia os preceitos dEle (Jerusalém ficava em Judá). O reino de Acabe durou 22 anos e ele é reconhecidamente o rei mais cruel e ímpio que Israel já teve. E um dos profetas que fizeram frente a ele foi exatamente Elias.

Moby Dick

Mas além do simbolismo bíblico, Moby Dick fala muito sobre a natureza humana e como podemos nos cegar na busca de um objetivo a ponto de se tornar uma obsessão monomaníaca. Para Ahab, nenhuma outra baleia (mais especificamente uma cachalote) interessa: apenas a Baleia Branca, Moby Dick, que num enfrentamento anterior lhe havia amputado uma perna.

Moby Dick, entretanto, tem suas falhas. Como qualquer outro livro, ele é um retrato de sua época, bem como da visão de mundo de seu autor. Desta forma, vemos coisas como baleias sendo consideradas peixes, com os argumentos científicos expostos no próprio livro sendo sumariamente ignorados, a exemplos claros e revoltantes (para leitores modernos) de misoginia e racismo.

Moby Dick

Porém, tais defeitos não são capazes de manchar a grandeza da obra. Moby Dick é tão importante que influenciou diversas outras obras, em várias mídias. Um exemplo dessa influência é o filme Star Trek 2 – A Ira de Khan, que é primordialmente Moby Dick no espaço. Sendo que Khan é Ahab e o Almirante Kirk é Moby Dick.

Oooops, acho que soltei um spoiler:P

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Vinícius Cordeiro

“And all I ask is a tall ship and a star to steer her by” – John Masefield

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  1. Tenho uma lacuna imensa em termos de clássicos! Sempre digo "Este ano vou começar a colocar essas leituras em dia", mas acabo me perdendo no mar do que me cai nas mãos (tão mais fácil, néam). Neste ano vou fazer uma lista das coisas que pretendo ler. Quem sabe assim funcione, né? :)
    Eu desconhecia todas as referência bíblicas que Moby Dick trazia. Aliás, eu desconhecia esse livro de forma quase completa, exceto pelas referências que nos pulam à vista vez ou outra na televisão (e na própria literatura: li um livrinho infantil com a história, quando bem pequena). Foi ótimo saber mais sobre a obra original. Minha dívida para com os clássicos aumenta a cada novo post no livre-se… 2012: ano de tomar vergonha na cara. Hehehe.

    • Vou te dizer que também conhecia bem pouco do livro, a não ser algumas referências que volta e meia aparecem na cultura pop. Star Trek 2 chega a ter trechos literais do livro citados na tela.

      E mesmo sabendo que Moby Dick ganha a briga, o livro valeu a pena. Só é preciso ter *muita* paciência, os desvios na narrativa cansam em certos momentos.

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