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[livro] O Leopardo – Giuseppe Tomasi di Lampedusa

O Leopardo - Lampedusa

Conforme prometido neste post, esta é a resenha do que eu considero o melhor livro de todos os tempos!

Giuseppe Tomasi di Lampedusa ou simplesmente Lampedusa, foi um príncipe italiano, nascido em Palermo. O sufixo do nome, “di Lampedusa“, refere-se à Ilha de Lampedusa, na Itália. Seu único romance, O Leopardo, foi publicado dois anos após a sua morte, já que em vida recebeu diversas recusas por parte de editoras. Depois, com o sucesso deste livro (vendeu milhões de cópias apenas na Itália) outros escritos seus foram lançados, como contos e outros ensaios. Lampedusa era, sobretudo, um amante da literatura. No exemplar que tenho consta um aparte do editor, contando como o conheceu em um evento de premiação literária, sem saber que anos depois editaria um romance seu.

Ganhei este livro de um amigo, que o considerou “muito difícil de ler”, e disse que eu era “bem capaz de gostar desse tipo de coisa”. Na hora eu ri, mas preciso confessar, porém, que demorei a me aventurar nas páginas de O Leopardo: tentei começá-lo inúmeras vezes, mas tinha aquela sensação de que não conseguia “entrar” no livro, não conseguia “engatar” a leitura (situação definida por muitos amigos meus como “Ressaca Literária”). Deixei-o de lado por alguns meses e, ao retomá-lo, fui inundada por ele. Nunca mais me senti a mesma depois disto.

A história narra parte da vida de Fabrizio Corbera, príncipe de Salinas, que assiste indolentemente à Il Gattopardodecadência da monarquia italiana. A passagem do tempo no livro ocorre de forma suave, de modo que deslizamos com a família Corbera (cujo símbolo no brasão dá o nome ao livro) ao longo de dias turbulentos na história da Itália, mas pouco ou nada diferentes para dentro dos portões de seus castelos em Palermo ou em Donnafugata. Aliás, essa característica do príncipe Fabrizio, de opor-se às mudanças ao insistir em manter exatamente a mesma vida independentemente da situação política do país é um dos pontos-chave da construção desta história. Enquanto isto, seu sobrinho Tancredi, um adorável príncipe falido (seus pais morreram logo após irem á ruína), integra-se ao movimento para salvar o pouco que lhe resta, dando ao tio como explicação a frase: “Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude“, uma das mais famosas citações de O Leopardo.

De todas as inúmeras qualidades deste livro, destaco a capacidade descritiva do autor. Ler sobre o jardim é estar nele, sentir seus cheiros, viver suas texturas. Acontece o mesmo à entrada de Angélica no jantar (uma de minhas passagens favoritas), os castelos, o baile… Creio que a vida e as experiências do autor tenham sido cruciais para que a riqueza de detalhes fosse tão rica. Foi levado ao cinema por Luchinno Visconti mas, sobre o filme, nada posso falar: me recuso a assistí-lo até hoje, apesar de meu professor de italiano (outro apaixonado por esta obra) me garantir que ficou maravilhoso. A verdade é que os cenários que compus na minha mente me são muito caros, e eu jamais me perdoaria se os trocasse pela curiosidade de ver como o filme ficou. Cenários e personagens são assim: uma vez vistos em filmes, os que compusemos com a leitura para sempre estarão perdidos.

O Leopardo - Baile

Vivo este livro em cores. Talvez por tê-lo relido tanto, talvez por ele ser mesmo o livro da minha vida. Sua linguagem é outra delícia: leve mas consistente. Palavras bem empregadas, sutilezas preservadas. Não me conformo por ter tão pouco deste autor para ler! As verdades ao longo do livro (como a célebre frase de Tancredi) me levaram a refletir sobre a obviedade de algumas situações cotidianas, que vivemos sem pensar e que são imutáveis ao longo dos anos. Em como pensamos viver coisas novas, em como cada geração crê que dita regras revolucionárias à forma de sentir e de agir, mas que, no final das contas, mudam pouco ou quase nada em sua essência, o que mudam são as convenções. Advirto a quem decidir procurar por estas verdades no livro, que nenhuma delas está grifada, pelo contrário: estão suavemente entretecidas nos traços da personalidade de cada personagem e em suas interações.

Eu poderia falar horas sobre este livro que me é tão caro, mas de nada valeria. É impossível fazer em um texto como este um retrato da leitura de O Leopardo, até porque a paixão que tenho por este livro me impede de fazê-lo com a imparcialidade necessária a uma resenha destas.

Estudei italiano por três anos e meio, motivada pela minha paixão pela sonoridade da língua, por minha própria história (sou descendente de imigrantes italianos), e por crer que pudesse ser um ponto positivo para a realização do meu desejo de concorrer ao posto de soberana da Festa da Uva. Mas todos estes motivos ficaram em segundo plano quando li este romance: assinei minha matrícula no curso de língua italiana com o firme propósito de ler Il Gattopardo em sua versão original, para me apossar de qualquer mínimo detalhe que a tradução me pudesse ter roubado.

Se isso não é amor, então não sei o que é.

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“Quem é você?” perguntou a lagarta. “No momento não sei muito bem, senhora” respondeu Alice, timidamente. “Eu sei quem eu era quando levantei esta manhã, mas acho que mudei muitas vezes desde então”. (Alice no País das Maravilhas – Lewis Carroll)

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