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[livro] O mar nunca transborda – Ana Maria Machado

o mar nunca transborda

Eu tento sempre começar falando qualquer coisa sobre o autor antes de falar sobre o livro. Porém, como O Mar nunca transborda é o segundo livro da Ana Maria Machado que leio em tão curto espaço de tempo (ganhei os dois de Natal, da minha irmã mais velha), acredito ser desnecessário. Sempre gostei desta autora, mas ganhei-os porque recentemente estive encantada com um livro dela chamado Balaio, sobre o qual prometo falar daqui a algum tempo, e que nada mais é do que a compilação de uma série de palestras, entrevistas e participações dela em debates cujos temas giram em torno da leitura e da escrita, e de sua influência sobre a educação e vice versa. Interessantíssimo, mas requer uma dose extra de atenção e de tempo para leitura contínua – porque houveram vezes em que, perdido o fio da meada, me vi obrigada a recomeçar todo o capítulo.
Quem quiser dar uma olhada no livro anterior (Alice e Ulisses) ou no parágrafo que ele contém sobre Ana Maria Machado, o post é este aqui.

Existem livros densos, pesados, tensos (como os que leio agora, As Crônicas de Gelo e Fogo, também conhecidas pelo título do primeiro livro, A Guerra dos Tronos) que, apesar de constituírem leituras magníficas, acabam tornando meu dia a dia pesado. Não sei como funciona pra vocês, mas para mim é assim: enquanto não termino o livro que estou lendo, a atmosfera dele me acompanha e me assombra, bem como seus personagens. Quanto mais intricada for a história, quanto mais suspense e tensão houver, mais vezes me pego pensando no livro e contendo minha vontade de ler até que ele acabe. Aliás, quando mais nova, era isso mesmo o que eu fazia: negligenciava outras atividades em prol da leitura, simplesmente por não conseguir prestar atenção a mais nada enquanto não terminasse o livro. Mas a vida de adulta me chama, portanto, me resigno aos fantasmas das histórias inacabadas às vezes por uma semana inteira…

Diferentemente do que acabo de descrever, a leitura de O Mar nunca transborda é leve e tranquila, sem maiores danos ao cotidiano do leitor, como o são quase todos os livros de Ana Maria Machado que já me caíram nas mãos (exceto Balaio, talvez). Os personagens se delineiam sem pressa com o passar das páginas, muitas vezes de dentro para fora: os conhecemos primeiramente através de seus gostos e conflitos, de suas dúvidas e vontades e, aos poucos, o restante do cenário vai se abrindo lentamente, com o vagar de ondas que chegam à praia, suavemente.
Apesar de o mar ser importante, o livro não tem o que ouso chamar de “cheiro forte” de maresia. As menções ao mar são feitas de forma sutil, sem excessivas descrições e forçados estereótipos marinhos (uma coisa que me incomoda bastante em leituras com este tema). Mas o mais interessante de O Mar nunca transborda é a forma como ele se passa em múltiplos locais e tempos diferentes: enquanto a história presente da personagem principal (Liana, uma jornalista brasileira que vive em Londres) acontece, a própria personagem cria uma história fictícia baseada em fatos conhecidos sobre o local onde cresceu, uma pequena praia no litoral do Espírito Santo. É como ler dois livros ao mesmo tempo, duas histórias diferentes, dois tempos, dois lugares. A história imaginada inicia-se no descobrimento do Brasil, e vai avançando à medida em que o livro acontece, até que ambas se tocam e se encontram no presente, quando as ações de Liana passam a contar o final da história inventada, e permitem vislumbrar seu futuro.
O valor desse livro está no fato de a complexidade não estar nas palavras, na linguagem propriamente dita, mas sim, nas relações dos personagens entre si e com sua própria história, seus conflitos, sentimentos e decisões. Mais uma vez, Ana Maria Machado entrega uma história dupla, em que é tão possível ler apenas os fatos e entreter-se com a leitura pura e simples, quanto enxergar uma história por detrás da história.

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“Quem é você?” perguntou a lagarta. “No momento não sei muito bem, senhora” respondeu Alice, timidamente. “Eu sei quem eu era quando levantei esta manhã, mas acho que mudei muitas vezes desde então”. (Alice no País das Maravilhas – Lewis Carroll)

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