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[livro] Tree and leaf – J. R. R. Tolkien

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Após longo e tenebroso inverno, aqui estou de volta. Eu já sabia que não iria conseguir manter o ritmo de quando comecei a postar aqui no Livre-se; além disso, para escrever sobre um livro eu ainda preciso ler o bendito. Então a partir de hoje eu começo a escrever sobre meu autor favorito: John Ronald Reuel Tolkien.

E para começar eu escolhi propositalmente uma obra que apenas os fãs e estudiosos da obra dele conhecem, mas que é importante por mostrar de maneira bem clara o modo de pensar e de construir estórias de Tolkien: Tree and Leaf.

O livro é uma coletânea de textos mais antigos de Tolkien, sendo publicado pela primeira vez em 1964. Contém o ensaio acadêmico On Fairy-Stories (publicado originalmente em 1947), o conto alegórico* Leaf by Niggle (publicado originalmente em 1945), o poema Mythopoeia (que foi adicionado nas edições publicadas depois de 1988 e escrito em 1931) e, por fim, o poema épico em métrica aliterativa anglo-saxã The Homecoming of Beorhtnoth Beorhthelm’s Son (publicado originalmente em 1953), que foi adicionado por último.

Tolkien

On Fairy-Stories foi originalmente escrita para a apresentação de uma palestra da série Andrew Lang, na Universidade de St. Andrews, Escócia, em 8 de março de 1939. É, em suma, a justificativa acadêmica de Tolkien para toda a sua obra. (Nesta época O Senhor dos Anéis tinha começado a ser escrito.) É um texto com uma estrutura radial, como uma teia de aranha de ideias relacionadas, mas que não derivam necessariamente uma da outra. Nele, Tolkien busca corrigir uma série de equívocos a respeito das estórias de fadas, em especial os cometidos pelos estudos de filologia e mitologia comparadas. Ele afirma que se passou tempo demais usando estórias de fadas e mitos como fontes de informação da antiguidade e tempo de menos considerando a importância e o papel das estórias como estórias, como narrativas que parecem brotar de um impulso humano primordial: o impulso para criar Mundos Secundários, para lidar com a Fantasia.

assinatura de Tolkien

Tolkien mostra que não mais alimentava ilusões sobre o suposto papel salvador do progresso e da tecnologia: como veterano da 1ª Guerra Mundial e pai de rapazes que lutaram na 2ª Guerra Mundial, ele conhecia muito bem a destruição que a tecnologia trazia junto consigo. Em sua opinião, a escravização tecnológica da natureza pode ter como subproduto a escravização do próprio homem. Daí a importância da fantasia e da sub-criação: com elas a nos ajudar, podemos fugir dessa armadilha, deixando de ser escravos ou tiranos da natureza para nos tornar seu amante.

Mythopoeia é o par de On Fairy-Stories, tendo inclusive uma estrofe inteira citada no ensaio. Traduzindo do grego, mythopoeia (μυθοποιία) quer dizer “o fazer dos mitos”, e foi escrito por Tolkien após uma discussão em 19 de setembro de 1931 com dois amigos dele: Hugo Dyson e C. S. Lewis. (Sim, o autor das Crônicas de Nárnia). O poema basicamente resume as ideias de On Fairy-Stories em forma poética, sendo um poema-programa, importante não só em si mesmo, mas principalmente pelo projeto literário que representa.

A história de Leaf by Niggle se entrelaça não só com os demais textos de Tree and Leaf mas também com a da obra-prima tolkieniana, O senhor dos anéis. Escrito no final dos anos 1930, o conto é um dos trabalhos mais autobiográficos de Tolkien, refletindo a ansiedade que acompanhava a criação da Saga do Anel e o que o autor via então como sua incapacidade de concluir o universo ficcional com o qual sonhava e no qual trabalhava desde a juventude. Quando a história tomou forma, conta Tolkien no prefácio original de Tree and Leaf, os hobbits Frodo, Sam, Merry e Pippin (que então nem esses nomes tinham ainda) tinham apenas começado sua jornada para Valfenda. O escritor simplesmente não sabia como a trama continuaria a partir dali.

O conto narra a história de Niggle, um pintor não muito organizado que vive perdendo tempo com detalhes e incômodos menores sem conseguir concluir a obra de sua vida. Isso reflete o próprio Tolkien, que em sua tentativa de criar uma mitologia para a Inglaterra, compulsivamente reescrevia detalhes que qualquer outra pessoa julgaria irrelevantes. Toda a obra de Tolkien ocuparia facilmente algo em torno de 20 volumes com mais de 400 páginas cada um, mas cerca de 90% desse material nunca foi impresso durante a vida dele exatamente por causa desse excesso de perfeccionismo.

tree and leaf - leaf by niggle

Por fim, temos o provavelmente único texto em forma dramática escrito por Tolkien, The Homecoming of Beorhtnoth Beorhthelm’s Son. Trata-se de uma continuação imaginária de um poema do fim do período anglo-saxão (algo entre o fim do século X e o início do século XI) conhecido como A Batalha de Maldon, que é um fragmento sem começo nem conclusão com 325 linhas.

O poema é escrito em métrica aliterativa anglo-saxã, que é uma forma bastante diferente da tradição poética ocidental tal como a conhecemos. Cada frase é dividida em duas meias-frases, e entre elas há a “rima” de determinados fonemas. Um exemplo em inglês pode ser mais útil para ilustrar isso (A aliteração está marcada com consoantes em negrito):

Here! Lend a hand! This head we know!
O lord beloved, where do you lie tonight
Was like words whispered by waking ghosts

Eu li esse livro 3 vezes nesses últimos dias: em inglês e as duas traduções em português disponíveis. Uma delas é a do livro Sobre Histórias de Fadas, publicado pela editora Conrad e traduzido por Ronald Kyrmse, o especialista em Tolkien revisor de suas obras aqui no Brasil desde meados dos anos 1990. Acontece que esta tradução é ruim: o texto flutua entre o excessivamente domesticador e o extremamente literal. Tratando-se de textos de um autor que é antes de tudo um filólogo, que deliberadamente faz escolhas de palavras extremamente significativas do ponto de vista filológico, a tradução deixou e muito a desejar.

É por isso que eu recomendo a leitura da outra tradução, feita por Reinaldo José Lopes como dissertação de mestrado ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês da USP, apresentada em 2006. O livro da Conrad também é de 2006, e aqui cabe um esclarecimento: esse livro foi uma tentativa de “puxar o tapete” do Reinaldo. Em 2002 a Editora Martins Fontes, dona dos direitos de publicação de O Senhor dos Anéis no Brasil, encomendou uma nova tradução desta obra (a tradução atual estava sendo contestada na justiça pelos tradutores, que queriam receber mais pelo seu trabalho devido ao aumento significativo das vendas causado pela exibição dos filmes à época). Esta nova tradução seria feita por Waldéa Barcellos, que havia traduzido O Silmarillion, sob a supervisão de Kyrmse. Acontece que esta tradução foi duramente criticada pelo Reinaldo, quando este teve acesso ao trabalho em andamento. Além de não haver grandes diferenciações da tradução anterior, Kyrmse queria introduzir algumas mudanças a título de uma maior aproximação linguística do original, mudanças essas que eram desastrosas, para usar um termo publicável. Felizmente esta tradução foi posteriormente cancelada pela Martins Fontes.

Jrr Tolkien

Se depois desse testamento todo você ainda estiver interessado em ler este livro, faça o download gratuito e legalizado da dissertação do Reinaldo. Mesmo porque somente nela temos uma tradução, mesmo que incompleta, do poema The Homecoming of Beorhtnoth Beorhthelm’s Son. Kyrmse sequer se atreveu a tentar traduzi-lo, algo que Reinaldo se arriscou a fazer. Só não terminou por conta da imensa dificuldade em usar as regras da aliteração em português, num processo que ele diz ser mais parecido com o de um construtor em pedra do que o de um músico (mais associado à poesia que estamos acostumados). O link é este aqui.


* Cabe ressaltar que esse é um dos raríssimos textos alegóricos de Tolkien. Como escrito no prefácio de O Senhor dos Anéis, Tolkien tinha um desgosto pela alegoria, por achar que ela viola a liberdade do leitor em interpretar uma estória pelo seu próprio ponto de vista, ao ser conduzido a uma interpretação específica pelo escritor.

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Vinícius Cordeiro

“And all I ask is a tall ship and a star to steer her by” – John Masefield

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