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Lucilia Junqueira de Almeida Prado – Um parágrafo é pouco

Lucília Junqueira de Almeida Prado - Foto da contracapa

Este texto sobre uma autora inicialmente era para ser um parágrafo do post seguinte, mas ele foi crescendo, criando forma, pernas e rabo, saiu da água e ganhou vida própria. (Escrever e coçar, é só começar…) A foto da imagem destacada é exatamente a que vinha nos livros da minha infância – que foi como a conheci – e é a imagem dela que sempre terei na minha cabeça. Quem já leu com toda a certeza entende. :)

Sobre Lucília Junqueira de Almeida Prado, é difícil saber muito. Por ser uma autora antiga, que não chegou com força às novas gerações e à era da internet, nem página na wikipedia a pobre autora tem. Tem mais de 60 obras publicadas, entre livros infantis e livros juvenis, e também escreveu alguns livros adultos (não associem este termo à pornografia, por favor) nunca publicados. Viveu em uma época em que não havia muita liberdade de escolha para as mulheres (olha eu, cheia de dedos para falar sobre esse assunto). Pelos meus cálculos, ela nasceu lá pelos idos de 1925. O curioso é que ela só começou a escrever quando completou 44 anos e terminou de criar os filhos e, portanto, pôde dedicar-se à carreira que sabia que seguiria desde criança, quando até seu professor de língua portuguesa predizia seu futuro literário. Cabe ressaltar que, apesar de hoje considerarmos absurdo esse regime feminino de casa-marido-filhos-e-por-último-eu, em nenhum momento me parece que Lucília se desagradou da vida que levava, pelo contrário: lendo seus livros pode-se até começar a gostar da ideia de viver assim (só que não, obrigada).

Esse contexto de época e modo de vida é importante para que eu fale mais sobre o próximo livro que vou resenhar (e sobre todos os outros de Lucília, que eu eventualmente venha a postar). Ela viveu esta atmosfera dona-de-casa e mãe-zelosa por muitos anos, e começou a escrever quando os filhos já eram jovens e sentiam falta de literatura jovem, de “textos com mais diálogos” (ela mesma o disse em algum lugar em que falava sobre seu contato com leitores jovens, da idade de seus filhos, e da sua motivação para escrever livros com a linguagem deles – nossos pais, hoje em dia). Aliás, uma das coisas mais fofas de ler Lucilia Junqueira de Almeida Prado é justamente a de viver este período, através da leitura, sem a visão deturpada de quem conta uma história: depois que uma certa época passa, é difícil que alguém fale sobre ela sem parecer distante, caricato, sem parecer estar de fato contando uma história. Com os livros dela, a gente está lá dentro, sentindo o cotidiano dos jovens daquela época, sem o peso de uma narrativa que, de forma apelativa, chame a atenção para roupas, costumes e palavreado, numa típica descrição de quem estranha uma cultura, alheia a quem a vive de fato. O livro Uma rua como aquela (que, a propósito, está no meu Top5), por exemplo, tem uma cena pra lá de fofa, quando todos os brotos da rua se reúnem na casa de um deles (o que tinha TV, o que era o máximo) pra assistir a chegada do homem à lua – em 20 de julho de 1969. Tem MESMO como não amar essa história – ainda mais descobrindo essa pérola ainda na infância? Este livro, inclusive, ganhou o prêmio Jabuti, em 1971.

A docilidade impera em seus livros. São ternos, são acariciantes como colo de mãe; as histórias românticas em seus livros não são forçadas, mas são meigas, e até realistas – principalmente se levarmos em conta o período em que foram escritas. Não seria justo concluir este pequeno post sobre Lucília sem falar de sua versatilidade: além de livros voltados ao público jovem e ao público infantil (o meu primeiro livro novo e todo MEU da vida foi escrito por ela, aliás, foi assim que a conheci), ela também escreveu romances históricos, histórias infantis, contos (caso do livro que vou falar em meu próximo post), e muito possivelmente um milhar de outras Lucília Junqueira de Almeida Prado em meio a seus livroscoisas que não sei, porque 65 livros podem bem esconder um universo de novos gêneros que ela domina e que desconheço. Ela é criativa e hábil em multiplicar contextos e em contar histórias diversas. Por exemplo: Uma rua como aquela trata da história de jovens que crescem juntos em uma rua sem saída em São Paulo, O amor é um pássaro vermelho traz a temática da imigração japonesa, A esperança tem muitas faces tem como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial no Brasil e retrata jovens politizados, interessados no rumo político do país e não somente no preço de jogos e roupas, mas divago. Isto é assunto para outro momento e lugar.

 

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“Quem é você?” perguntou a lagarta. “No momento não sei muito bem, senhora” respondeu Alice, timidamente. “Eu sei quem eu era quando levantei esta manhã, mas acho que mudei muitas vezes desde então”. (Alice no País das Maravilhas – Lewis Carroll)

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  1. O Primeiro livro que lembro ter lido bem cedo foi Uma Rua Como Aquela, de Lucília Junqueira de Almeida Prado. Devia ter uns 12 anos. O livro tinha páginas amarelas e cheirava a livro antigo. Mas quando terminei de ler fiquei encantado. Foi uma surpresa perceber que ler podia ser tão prazeroso.

  2. amo ler e um dos livros que mais gostei foi uma rua como aquela, engraçado que foi minha sogra que ne passou o livro, pertencia a seus filhos que liam para trabalho de escola. delicioso , não esta mais comigo , oena queria tanto que meus filhos pudessem ler…

  3. Uma de minha autoras favoritas, na infância… Tenho até hoje vários de seus livros, emprestei aos meus sobrinhos, que gostaram bastante também.

  4. Kauã Lima disse:

    eu leio ainda o Afinal,é a felicidade mas estou atraz de lojas que vendem os livros q eu vou comprar

  5. O livro "SOB AS ASAS DA AURORA", EDITORA CONQUISTA/SCORTECCI EDITORA foi lido por mim e estou terminando a leitura do "CONTOS FAZENDEIROS".

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