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Projeto Vai e Vem

balcão móvel do vai e vem e fundador do projeto, vitor lippi

Como alguns de vocês já sabem, nasci e cresci no Rio Grande do Sul mas, há alguns meses, moro em uma cidade chamada Sorocaba, no estado de São Paulo. Ao me mudar, fui trazendo as minhas coisas aos poucos, conforme precisava delas e podia ir buscá-las e, nessa função toda, quem acabou ficando para trás (e ainda não veio)  foi a minha mini-biblioteca querida. Senti muita falta dos livros que já reli mil vezes, bem como dos que comprei e ainda não li (destes mais do que de todos), senti falta deles até mesmo pela função decorativa que eles exercem. Uma casa com uma porção de livros juntinhos, em prateleiras ou em mesas, torna-se um lugar muito mais digno de ser habitado. Havia ainda, algo de aconchegante naquele amontoado de livros específico porque eu os conhecia de cor, conhecia a história de como cada um deles vieram parar ali.

Por este motivo e uma série de outros, esta mudança acabou arrefecendo meu ânimo de leitora, e fazendo com que eu lesse muito menos do que me era habitual. O próprio hábito da leitura pareceu perder o gosto familiar que me tinha, e passou a parecer uma tentativa canhestra de manter algo de meu em meio a tanta mudança de contexto.

Mas eis que, mesmo estando longe das livrarias e sebos que cresci amando e dos livros que acumulei ao longo da minha curta vida, bem como dos lugares que faziam brotar em mim o desejo de ler (parques, quarto, trajeto de ônibus conhecido), algo me fez voltar a ler com prazer. Foi o Projeto Vai e Vem, da Prefeitura de Sorocaba.

Este projeto, nascido de uma viagem do prefeito (na imagem destacada, olhando os livros) à Colômbia – onde conheceu um projeto similar, chamado “Livros ao Vento” – nada mais é do que o empréstimo de livros como em uma biblioteca convencional, mas sem que seja necessário apresentar nenhum tipo de documento, nem cumprir qualquer prazo de devolução: o leitor simplesmente escolhe um livro, leva para casa, lê no seu próprio tempo, e devolve quando quiser. Tem coisa mais linda?

A ausência de burocracias no processo de empréstimo torna possível a instalação de pontos de troca em muitos lugares diferentes. Shoppings, postos de saúde, terminal de ônibus (onde, aliás, existe uma biblioteca de verdade, e não só um ponto de troca) e em diversos outros lugares. Nestes pontos de troca, há um balcão discreto, com vários livros em cima. A gente pega ali, devolve ali mesmo ou em qualquer um dos outros pontos, e tá tudo certo. A coisa toda é entre o livro e a gente, e ninguém mais.

Confesso que, ao chegar em Sorocaba, achei o projeto interessante, mas ignorei. Descrente da boa fé das pessoas como eu estava naquele momento, achava que sobre o balcão só haveriam livros ruinzinhos, aqueles que ninguém quis levar (o que não é tão mentira assim) e nem me dei ao trabalho de olhar direito. Dias depois, com tempo sobrando, resolvi mexer nos livros, como quem não quer nada. E, para minha surpresa, encontrei uns dois ou três que fiquei realmente tentada a ler. Mas não levei.

Já pensei inúmeras vezes em fazer algo parecido com deixar livros por aí para que as pessoas pudessem lê-los e “abandoná-los” novamente depois. Acho lindo essa coisa de tratar livro feito passarinho, de passá-los adiante, de ter o mundo cheinho deles (o curioso é que parte de mim ama ter, ver e tocar os que tenho em casa, dois desejos inimigos que de alguma forma, conseguem cohabitar em mim). Por pura correria de vida ou falta de incentivo/companhia, acabei deixando pra lá essa ideia de espalhar alguns livros. Mas creio que essa parte de mim que ama ver a leitura acessível e não-burocrática passou a gostar desse projeto adorável e, em uma destas “olhadelas” pelo balcão, acabei levando um pra casa. Viciei.

Esta graça de ter livros espalhados e soltos por todos os cantos acabou devolvendo a mim um hábito que já era tão meu. A perda de todos os “meus” lugares literários, por conta da mudança, foi então superada: eu finalmente encontrei um aspecto literário desta cidade para sentir e chamar de meu.

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“Quem é você?” perguntou a lagarta. “No momento não sei muito bem, senhora” respondeu Alice, timidamente. “Eu sei quem eu era quando levantei esta manhã, mas acho que mudei muitas vezes desde então”. (Alice no País das Maravilhas – Lewis Carroll)

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