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Rato de Sebo

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Eu fui rato de sebo por muitos anos. Quando mais nova, gastava praticamente tudo o que sobrava do meu escasso dinheiro com livros usados.

Tentei parar. Dizia a mim mesma que não iria mais comprar nenhum por “x” tempo, mas era só passar na frente que entrava “para dar uma olhadinha” ou para comprar “um livro só”… E aí, já era. Minha mãe me xingava (queria que eu comprasse roupas, acessórios, etc. – juro), e eu não tinha espaço pra eles, mas continuava aumentando minha pequena coleção de livros através de “efeito formiguinha”: um a um, a pilha de livros em cima da mesa do quarto ia se acumulando.

Livros na mesa, e Bookend da Pucca (que eu fiz)

As vantagens de se comprar livros usados são várias. Em primeiro lugar, o preço: vinte reais em um sebo é festa pra semana toda, e até mais. \o/ Há ainda a sensação de estar se “adotando um livro abandonado” (tadinho!), a variedade de títulos em self-service (livrarias focam nos lançamentos e, para saber se há um livro específico ou não, é necessário pedir para um atendente ou consultar aqueles computadores chatos). Aliás, em livrarias quase sempre tem um atendente que parece estar esperando que eu compre logo e saia. E eu adoro tanto perder um tempão escolhendo…

E em sebos, há ainda as surpresas que se podem encontrar: livros antigos, histórias antigas. E dá pra arriscar muito, sem medo de comprar e não gostar depois, já que são tão baratos. E uma das coisas que mais gosto: os livros já tem uma história. Já comprei livros com fotos dentro; houve um, certa vez, com uma foto de família de muitos, mas muitos anos atrás, com uma dedicatória em alemão!

As dedicatórias… A maioria é impessoal, redigida com pressa ou preguiça, mas há de todos os tipos. Há algumas interessantíssimas, que me deixam tentando adivinhar seu sentido por dias. Só pra deixar claro: Não gosto de escrever em livros, e não gosto de quem o faz. Se você é um vândalo-riscador-de-livros, saia já daqui! (Ou melhor: não saia não: deixe um comentário me xingando, que estou fazendo um esforço sociológico pra tentar entender a mente de quem tem esses hábitos estranhos).

Achei que estivesse curada, mas há algumas semanas, fui a um sebo comprar um livro infantil, a pedido da escolinha do @gutoscopel. Era pra mandar um que já fosse dele, com o intuito de trocar com os amigos e praticar o desapego. Só que eles esqueceram de trabalhar o desapego nas mães, porque eu não tenho coragem de me desfazer de nenhum dos livros dele.

Sendo assim, comprei um livrinho pra trocar (beijo pra quem acreditou que comprei UM livro). Mas então cometi o erro de olhar para o lado: aí enxerguei livrinhos de pintar, como os que eu ganhava do meu pai quando pequena (e aposto que vocês também) – e adorava, e não resisti. Era tão barato que vocês não acreditariam (gastei mais de ônibus para ir até lá do que com três livros destes). Aí aproveitei para ver se encontrava alguns títulos que amigos meus estão procurando (O Tempo e o Vento, pra Tayra, vários outros pra minha querida irmã vestibulanda, etc.). E eis que encontro um livro da Lucília, uma das autoras mais marcantes da minha infância (tanto que tem um livro dela no meu top 5, ó) e pego na mão pra dar uma olhada. Era um dos que eu nunca tinha lido.

Livros do sebo

Ao olhar o preço – na Só Ler, este sebo em que fui, todos ficam escritos a lápis na primeira página – reparo que há algo mais na capa. Uma dedicatória? Não… Era um autógrafo, da própria Lucília, datado de 1979! Chorei lágrimas literárias e levei o livro na mesma hora. O título dele é O Ipê floresce em agosto, e eu nunca havia lido. Devorei-o rapidamente no dia seguinte, e adorei cada página.

Agora vem a parte divertida: sabem quanto paguei por ele? Absurdos TRÊS REAIS! E ainda há quem diga que a leitura é inacessível, que livros são caros, etc. Olha, concordo que livros novos deveriam receber toda a sorte de incentivos para terem seu preço reduzido e tudo o mais. Mas nessas horas, dá vontade de bater (e com um livro bem grosso) em quem usa o preço como única desculpa para não ler.

Dedicatória - Lucília Junqueira de Almeida Prado

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“Quem é você?” perguntou a lagarta. “No momento não sei muito bem, senhora” respondeu Alice, timidamente. “Eu sei quem eu era quando levantei esta manhã, mas acho que mudei muitas vezes desde então”. (Alice no País das Maravilhas – Lewis Carroll)

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