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Textos no ponto

ovo

Conversando com a Tayra por e-mail há uns dias atrás, me peguei pensando novamente em uma questão que sempre me intrigou: o que exatamente faz de um texto uma resenha? E uma crônica? E um conto, um resumo, redação, ou qualquer que seja o “formato”, por assim dizer, em que um texto se enquadra? (Reluto muito em chamar os posts do blog de “resenhas” ou de “críticas”, ou do que quer que seja, e ser pega pela patrulha da gramática).
Sei que existem especificações e normas e que, querendo, uma rápida pesquisa poderia solucionar quaisquer dúvidas a respeito. 

Mas isso não me interessa: o que sempre me intrigou foi o fato de nunca saber exatamente o que estou escrevendo – apesar de não conseguir realmente me importar com isto quando escrevo. Ao escrever, é importante que a mensagem seja clara, e que sirva ao propósito de dizer exatamente aquilo que o autor quer dizer. Escrever um texto tendo em mente o formato antes mesmo de começá-lo pode tolher de forma grave a liberdade de expressão e a criatividade do autor, e acabar prejudicando o que é escrito. Por mais que catalogar textos tenha lá sua utilidade, acho que isto definitivamente não é problema de quem escreve, nem sequer de quem lê.

Confesso que só cheguei a essa conclusão depois de encontrar um texto de um Titã do país da Palavra Escrita, Luís Fernando Veríssimo (sim, novamente o Veríssimo, esse lindo) que, vejam vocês, resolveu completamente meu problema. Se antes algo em mim carregava uma certa culpa por preferir a liberdade de classificações da escrita (que se refletia na tortura da autocrítica e da contagem de parágrafos, para não escrever demais), depois deste texto, me sinto liberta e justificada.

Segue então a crônica (ou não) em que Veríssimo tira das minhas costas o peso da gramática, deixando apenas a leveza da escrita. Que se ocupem das regras de estilo aqueles que com elas se importam acima do sentido. E nada mais (além do texto abaixo) a declarar.

a importância da escrita em detrimento do formato

 

A Crônica e o Ovo – Luís Fernando Veríssimo

A discussão sobre o que é, exatamente, crônica, é quase tão antiga quanto aquela sobre a genealogia da galinha. Se um texto é crônica, conto ou outra coisa interessa aos estudiosos de literatura, assim como se o que nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha, interessa aos zoólogos, geneticistas, historiadores e (suponho) o galo, mas não deve preocupar nem o produtor nem o consumidor. Nem a mim nem a você.
Eu me coloco na posição da galinha. Sem piadas, por favor. Duvido que a galinha tenha uma teoria sobre o ovo, ou, na hora de botá-lo, qualquer tipo de hesitação filosófica. Se tivesse, provavelmente não botaria o ovo. É da sua natureza botar ovos, ela jamais se pergunta “Meu Deus, o que eu estou fazendo?” Da mesma forma o escritor diante do papel em branco (ou, hoje em dia, da tela limpa do computador) não pode ficar se policiando para só “botar textos que se enquadrem em alguma definição técnica de “crônica”.
Há uma diferença entre o cronista e a galinha, além das óbvias (a galinha é menor e mais nervosa). Por uma questão funcional, o ovo tem sempre o mesmo formato, coincidentemente oval. O cronista também precisa respeitar certas convenções e limites, mas está livre para produzir seus ovos em qualquer formato. Nesta coleção, existem textos que são contos, outros que são paródias, outros que são puros exercícios de estilo ou simples anedotas e até alguns que se submetem ao conceito acadêmico de crônica. Ao contrário da galinha, podemos decidir se o ovo do dia será listado, fosforescente ou quadrado.
Você, que é o consumidor do ovo e do texto, só tem que saboreá-lo e decidir se é bom ou ruim, não se é crônica ou não é. Os textos estão na mesa: fritos, estrelados, quentes, mexidos… Você só precisa de um bom apetite.”

(Prefácio de “O nariz e outras crônicas”, Para gostar de ler, volume 14)

 

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“Quem é você?” perguntou a lagarta. “No momento não sei muito bem, senhora” respondeu Alice, timidamente. “Eu sei quem eu era quando levantei esta manhã, mas acho que mudei muitas vezes desde então”. (Alice no País das Maravilhas – Lewis Carroll)

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